Reserva de Hoteis e Pousadas em Morro de Sao Paulo

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terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Como começou o Vilarejo e o Turismo em Morro de São Paulo.

Morro de São Paulo não se resume, obviamente, às suas belezas naturais. Além do ar puro aqui se respira muita história. O passado de Morro de São Paulo é narrado principalmente através dos relatos dos mais antigos moradores. Moradores estes, que possuíam um ritmo de vida tranquilo, vivido numa vila de pescadores com belas praias e marcado por uma densa história.

Há poucos registros que fundamentem esta trajetória, mas de uma coisa todos que residem na ilha têm uma certeza: Morro de São Paulo já foi há muito tempo um lugar tranquilo para se viver. Há mais de 30 anos atrás era uma vila simples, de pessoas pacatas, que sobreviviam exclusivamente da pesca e das lembranças de um passado glorioso. Passado este que teve início a partir de sua descoberta, em 1531, atribuida ao navegador português Martim Afonso de Souza. Nos últimos quatro séculos a ilha registrou episódios de pirataria, contrabando de mercadorias e serviu até de palco para batalhas.

Hoje pode-se dizer que é considerado um dos destinos tropicais mais procurados por turistas dos quatro cantos do mundo. A vida sossegada dos nativos começou a dar indícios de que estava prestes a mudar quando passou a receber as primeiras visitas dos chamados “veranistas”, oriundos de cidades vizinhas que atravessavam o canal em barco a vela. Nesta época, na década de 70 a energia elétrica e o telefone ainda estavam distantes da realidade dos morristas. Os moradores usavam candeeiros ou fifos a querosene. Até surgir o gerador que fornecia energia das 17h às 22h. A luz elétrica só apareceu em 1985. Na Fonte Grande as pessoas tomavam banho coletivo e a ponte do cais, onde hoje desembarcam diariamente centenas de pessoas, era um pequeno pier de madeira.

Os veranistas permaneciam durante os meses de férias, alugando as casas de nativos e alguns chegaram até a construírem suas próprias casas, situadas principalmente na Primeira Praia. Depois dos veranistas surgiram os mochileiros e hippies que divulgaram para o mundo inteiro a beleza de Morro de São Paulo e o tornaram conhecido mundialmente através de seus testemunhos. Foram através dos hippies também, que muitos estrangeiros ficaram sabendo da existência e conhecendo a ilha de Tinharé e consequentemente alguns aqui se estabeleceram, trazendo seus costumes que foram aos poucos sendo incorporados à cultura local. Muitos destes, não resisitiram as belezas naturais e trocaram a sofisticação das metrópoles pela vida rotineira da ilha.

Morro de São Paulo passou a receber turistas de todas as partes do Brasil e do mundo e as casas dos nativos foram se transformando em restaurantes, pousadas e assim nascendo toda uma infra-estrutura para atender a nova demanda chamada de turismo.

As praias originalmente tinham outros nomes. Não eram denominadas pela ordem numérica que possuem hoje. Cada uma tinha uma denominação de acordo com uma característica própria. A Primeira, que também foi a primeira praia a despontar, se chamava “Prainha”. A Segunda que foi descoberta logo após a Primeira no final dos anos 90, era “Poço da Praia”, porque realmente se parecia com um poço.

A Terceira chamava-se “Rio do Pinto”, devido à existência de uma Fazenda, até o início da Quarta Praia, cuja área era conhecida como “A Ponta”. A Quarta Praia era “Mangue Queimado” e ao final desta, no local onde existia outra fazenda que recebia o nome de “Seres”, pelo fato da filha do proprietário chamar-se assim. Já, a Praia do Encanto havia originalmente dois nomes: “Mata”, logo no início e “Karapitangui”, mas para o final da praia. A Praia Ponta da Pedra sempre manteve esta denominação, já a Porto de Cima, existem alguns moradores que dizem que esta praia se chamava “Praia do Jeque”, por ter morrido um jegue no local.

Você ficará sabendo mais sobre a história de cada uma destas praias, como ocorreu a povoação, acontecimentos, pessoas que marcaram estas áreas e curiosidades no link Praias.

Na época da Segunda Guerra Mundial, Morro de São Paulo serviu de palco para acontecimentos como o naufrágio dos navios “Arará” e “Itagiba”, que foram torpedeados pelos nazistas na costa. A comunidade socorreu os naufrágos e os mais antigos moradores ainda recordam estas lembranças e os tempos de medo por que passaram. Desses saudosos tempos até hoje, Morro de São Paulo passou por incontáveis transformações e o chamado progresso que parecia tão distante por Morro de São Paulo ser localizado geograficamente numa ilha, chegou. Com ele vieram as mudanças. Algumas boas, outras nem tanto. Algumas construções foram feitas desornadamente. Não houve uma disciplina em algumas partes de ocupações de áreas.

Talvez por falta de organização do poder público ou até mesmo por descaso da própria população que não se preocupou em desempenhar o papel de agente fiscalizador. Mas apesar desta ilha ter sofrido tantas transformações, ainda preserva o que carrega desde a época de seu descobrimento: a beleza natural.

E é esta beleza aliada à cultura eclética de seus nativos e moradores que atraem turistas do mundo todo e a torna tão especial. Morro de São Paulo foi, é e continuará sendo um dos lugares mais belos e especiais para morar. E isto é constatado por aqueles que aqui vivem e também por pessoas que visitaram a ilha.

A história de Morro de São Paulo é muito rica e inteiramente desconhecida por muitos de seus habitantes. E toda esta história, repleta de lendas e mitos, será contata nesta parte de OMorrodeSaoPaulo. Desde seu descobrimento até os dias atuais, o processo de evolução pelo qual a ilha passou e o desenvolvimento do turismo.

Tudo baseado em poucos escritos e muitos depoimentos dos nativos mais antigos que com toda a certeza são as peças principais deste enredo e merecem todo o respeito e consideração. Foram eles que fizeram deste lugar, além de uma ilha conhecida internacionalmente, um lugar mágico para se viver e que facilmente nos apaixona.

Resta-nos agora, respeitá-los e saber cuidar da herança deixada para que possamos usufruir ainda por muito tempo deste paraíso chamado Morro de São Paulo.

Evolução Histórica de Morro de São Paulo

O Descobrimento – De 1531 a 1942

Segundo os arquivos da época a primeira pessoa a desembarcar em Morro de São Paulo foi um explorador português, chamado Martim Afonso de Souza, em 1531.

Na ocasião Martin Afonso, estava acompanhado de seu irmão Pero Lopez.

Embora isto esteja publicado na grande parte dos livros de História, existem teorias de que eles não foram os primeiros europeus a pisarem nos solos de Tinharé.

O antropólogo e escritor, Antonio Risério, em seu livro “Tinharé–História e Cultura no litoral Sul da Bahia” (BYI Projetos Culturais LTDA/2003), aborda a imediatez dos irmãos em reconhecerem o lugar e a facilidade em nomeá-lo.

O que leva a crer que antes mesmo da passagem dos portugueses, alguns navios estrangeiros podem ter circulado por estas terras. O nome dado por Martim Afonso de Souza a ilha foi “Itanharéa”, sendo mais tarde chamada apenas de Tinharé, cujo significado de acordo com a língua índigena tupiniquim quer dizer “o que se adianta na água”.

Antonio Risério, em seu livro, fala minuciosamente da importância e passagem do povo indígena pelo litoral alto sul baiano. Impossível falar da história de Tinharé, sem citar os aimorés, conhecidos também por “botocudos” (por usarem botoques labiais e auriculares feitos de madeira) e os “gueréns”. Este grupo indígena não eram índios tupis. Pertenciam ao tronco linguístico “macro-jê”. Entre seus costumes estavam a ausência de aldeias e o fato de dormirem no chão sobre folhas. Sobreviviam da caça e da pesca. A colonização do litoral baiano teve início a partir das Capitânias Hereditárias, que se tratavam de imensas extensões de terra doadas por D. João III, rei de Portugal na época, a representantes com poder aquisitivo alto da iniciativa privada.

Em 1534, o território baiano foi dividido em três capitânias, sendo uma dessas a Capitânia de Ilhéus, que abrange a Costa do Dendê, onde fica o arquipélago de Tinharé.

Morro de São Paulo começa a ser citado historicamente no ano de 1535, quando o tenente Francisco Romero, partiu de Lisboa para a Costa do Brasil, ancorando seus navios e desembarcando na Ilha de Tinharé. Aportou na ilha juntamente com alguns barcos e colonos visando estabelecer ali a sede da Capitania. Assim surgiu a primeira povoação européia da Capitânia de Ilheús, uma das primeiras do atual Estado da Bahia e uma das mais antigas de todo o Brasil. Francisco Romero mudou os planos de tornar Morro de São Paulo a sede da Capitania quando percebeu que as terras de Tinharé não eram propícias ao cultivo da cana de açúcar. Francisco Romero rumou a outros destinos e fundou a Vila de São Jorge dos Ilhéus.

Mesmo não tendo sida escolhida como sede da Capitânia, Morro de São Paulo foi a partir de 1535 efetivamente colonizado e sua denominação deve-se pelo fato do desembarque de Francisco Romero com sua frota ter ocorrido justamente no dia de São Paulo, dia 25 de janeiro, data segundo o calendário da Igreja Católica correspondente a conversão de São Paulo. Já a denominação “morro” é explicada pela geografia acidentada da região. Nesta época, estas localidades formavam a Capitânia de Ilhéus e auxiliavam com homens e produtos alimentícios a reação baiana às invasões. Foi dentro deste contexto que surgiu a idéia das autoridades coloniais em construírem uma fortaleza nesta região com o propósito de defender a capital de ataques estrangeiros, então, o Governador Diogo Luis de Oliveira deu início à construção da Fortaleza de Tapirandu, em Morro de São Paulo, em 1630.

Anos mais tarde, de acordo com registros, Morro de São Paulo abrigava uma guarnição com 51 peças de artilharia, 183 homens e uma muralha de quase mil metros de extensão. Em 1730, a Fortaleza foi ampliada por D. Vasco Fernades César de Menezes, conhecido como Conde de Sabugosa, com o objetivo de tornar a ilha posto fiscal e militar. No início do século 17, o capitão Lucas Saraiva da Fonseca fixou residência em Morro de São Paulo e ao lado ergueu uma capela, pedindo proteção a Nossa Senhora da Luz.

Registros apontam que neste período havia poucas casas que ficavam situadas junto a Praça Aureliano Lima e na rua que levava a praia. As poucas moradias existentes nesta rua eram pertencentes aos nativos e aos soldados da Fortaleza.

Em Cairu, Boipeba e Morro de São Paulo começaram a surgir os conventos, casas, sobrados praças e igrejas. Após a fase das invasões holandesas, os aimorés ou botocudos voltam a atacar na região e agora chamados de “gueréns”, denominação que estes índios tinham nas terras de Porto Seguro. Os gueréns causaram medo e travaram inúmeros combates durante décadas na Capitânia de Ilhéus e consequentemente converteram as vilas de Cairu e Boipeba em pobreza. Neste período entraram em cena a mando das autoridades coloniais, os bandeirantes paulistas. João Amaro, um destes bandeirantes, foi destinado para Cairu em 1671 e até 1673 esteve na Vila e conseguiu apaziguar e por fim as intermináveis lutas dos gueréns.

Após o período de batalhas e de ser considerado como zona franca e ponto de passagem de aventureiros e contrabadistas, Morro de São Paulo passou a produzir farinha de mandioca. No século 17 muitos navios que vinham de Portugal e da Angola costumavam fechar negociações clandestinas antes de entrar na costa da Baía de Todos os Santos. As vilas do litoral sul passaram a ser as fornecedoras para Salvador e para as vilas do Recôncavo, inclusive, o antropólogo Antonio Risério, faz uma citação em seu “Tinharé–História e Cultura no litoral Sul da Bahia”-Capítulo 14- Pág.127, que define muito bem a situação dos povos do litoral sul nesta época: “O morador de Ilhéus, Cairu, Camamu ou de Boipeba é agora, economicamente, uma espécie de índio do morador da Bahia de Todos os Santos e terras circunsvizinhas....”

Por volta de 1670, o governador Afonso Furtado proibiu a construção de engenhos e as plantações de canaviais nas vilas do litoral sul, visando que todas as forças de trabalho fossem concentradas no cultivo da mandioca. Somente um engenho ficou existindo, por tratar-se de ser muito antigo e de propriedade de Antônio de Couros, em Cairu. Posteriormente, surgiu a época da extração da madeira e as matas do alto-sul da Bahia tiveram suas árvores tombadas para a construção de navios e para reparo das armadas da Baía de Todos os Santos. As praias do litoral do sul da Bahia foram recebendo os europeus, mais tarde os negros, cobrindo-se de novas espécimes vegetais, conhecendo novos bichos e novos estilos arquitetônicos.

Apesar de não ser a região que tenha concentrado o maior número de escravos, estas vilas tiveram a maior incidência de formação de quilombos, de acordo com Stuart Schwarz, que afirma em seu livro “Escravos, Roceiros e Rebeldes”, isto se explica pelo fato de que estas vilas se encontravam enfraquecidas e não tinham como bloquear a entrada de negros fugitivos. Cairu registra a presença de quilombos em sua história e apesar de ser considerado um local de difícil acesso, não impediu que os quilombos de se fixarem na região e permanecerem, até o final do século 17, deixando estas comunidades sob ameaça constante.

Segundo registros existiu uma denúncia em 1846 em relação à existência de uma irmandade negra, denominada de “Irmandade de São Benedito”, cuja sede seria na igreja franciscana local. Nos tempos que nem gueréns, nem os quilombos amedrontavam a região, as vilas começavam a retomar a rotina de sobrevivência. Citamos mais uma vez Antonio Risério, que aponta que o Censo de 1780 revela que naquela época existiam em Cairú quatro mil habitantes e em Boipeba, 3.300.

Pode-se dizer que no século 18 Morro de São Paulo resumia-se territorialmente a uma única rua, que ligava a capela à praia. Com o surgimento da Fonte Grande, no ano de 1746 apareceu outra rua.

Embora o Brasil tenha ficado independente de Portugal em 1822, a Bahia somente conquistou sua independência no dia 02 de julho de 1823. Os portugueses recusaram-se a entregar a Bahia ás províncias nordestinas e a região amazônica e a partir dai travaram-se batalhas portuguesas e brasileiras até o desfecho desta história, que na Bahia terminou em 1823 com a retirada dos portugueses das terras e a incorporação do estado baiano ao estado Nacional.

A participação do litoral alto-sul, especificamente das vilas de Cairu, Boipeba e Morro São Paulo, foi importante nesta conquista principalmente no que diz respeito a Fortaleza de Tapirandu. Segundo anotações pessoais, o imperador D. Pedro II, visitou a ilha em 1859, juntamente com a Família Real. Nesta ocasião, de acordo com seus apontamentos, Dom Pedro II relata que viviam na ilha cerca de 300 famílias. Existem documentos que revelam um suposto banho do imperador na Fonte Grande, em companhia da Marquesa de Santos.

No final do século 20, o povoado de Morro de São Paulo perdeu sua importância estratégica e militar, transformando-se numa pacata vila de pescadores. A explosão dos cacaus na Bahia, registrada a partir da década de 1950, não atingiu as terras de Tinharé. Enquanto Ilhéus progredia e ganhava com as novidades urbanas, a Ilha de Tinharé registrava um panorama econômico paralisado com seu vilarejo de pescadores. Já neste período também, Morro de São Paulo oferecia segurança à navegação regional devido à presença do Farol e passa a sofrer com o medo ocasionado pela Segunda Guerra Mundial.

Agosto de 1942 - Os reflexos da Segunda Guerra Mundial no povoado de Morro de São Paulo.

Morro de São Paulo ressurgiu no cenário brasileiro no período da II Grande Guerra, entre 1941 a 1945. A guerra estourava na Europa, mas o vilarejo de Morro de São Paulo, situado à milhas de distância, sentiu as consequências de maneira muito próxima.

O povo sentiu-se acoado o tempo inteiro. Este distanciamento geográfico e ao mesmo tempo esta proximidade com a guerra: o medo, a angústia, é explicado em função da ausência de notícias, pois não havia meios de comunicação na comunidade e também pela dificuldade de deslocamento, pois o tempo da viagem até a cidade de Valença que era a mais próxima podia durar quatro horas em barco a vela, dependendo das condições do mar. O medo dos habitantes de Morro de São Paulo também é atribuído a uma leitura própria, de acordo com o historiador e mestre em História Social, Augusto César M. Moutinho.

Esta leitura na verdade se estabelece em função de elementos culturais já segmentados na comunidade, por exemplo, o medo que sentiram em 1942 não é algo novo na população. A concepção de medo atingiu uma forma reconhecida pela comunidade, ou seja, eles conhecem o medo desde os primeiros tempos da colonização, através das tentativas de invasões dos holandeses. “Este medo é rememorável o tempo inteiro e a comunidade faz coletivamente uma releitura”, explica Moutinho.

Também professor da Faculdade de Ciências Educacionais (FACE), Moutinho é autor do livro: “A Sombra da Guerra” (Salvador/Quarteto,2005). A idéia em escrever o livro surgiu primeiramente como forma de dissertação do Mestrado de História e depois sim o livro que foi publicado em 2004. Sua família é nativa da ilha e ele conta que sempre ficava conversando com os mais velhos, sentado nas escadarias da Igreja Nossa Senhora da Luz, enquanto pegavam uma brisa fresca. Em meio a tantos outros temas, um era referência imediata na memória dos nativos, a Segunda Guerra Mundial. Estas conversas despertaram o interesse em falar sobre o assunto. A intensão do livro foi discutir as particularidades da comunidade.

A referência, argumenta o historiador, se dá por conta das grandes dificuldades da época, da alimentação e do medo. “Eles estavam praticamente isolados em termos geográficos e construíram uma noção de guerra extremamente particular e interessante”, ressalta. Nestas conversas com os antigos nativos, este conceito de medo sempre vinha à tona. E conforme Moutinho, é interessante falar também, talvez seja uma contradição, do saudossismo. E como a memória desobedece ao tempo e ao espaço, ele acredita que este saudossismo esteja relacionado as teias de solidariedade, aos bons tempos da ausência do capital, mas da liberdade de autônomia e da unidade familiar. De acordo com o livro e também alguns relatos de nativos que viveram nesta época, agosto de 1942 foi um período trágico mundialmente e particularmente para Morro de São Paulo, foram três dias de sufoco no litoral baiano.

Os moradores foram pegos de surpressa. A comunidade ficou abalada com os afundamentos dos navios brasileiros “Itagiba” e “Arará” que ocorreram aproximadamente 12 ou 15 milhas rumo leste da costa. “Foi terrível porque as pessoas chegaram muito machucadas, em baleeiras.

Alguns já mortos, recorda a senhora Elze Moutinho Wense, 77 anos, nativa. Ela reforça a teoria do medo, definindo este período como sendo o “tempo do medo”. “Qualquer coisa diferente que acontecesse a gente sentia medo. “Não podia deixar luz acessa nas casas à noite para evitar sinal de que havia gente”, conta. Existia um receio muito grande da inclusão de submarinos. Dona Zezé lembra do episódio de uma barcaça carrregada de bananas, que estava viajando rumo a Salvador e foi torpedeada. A carga foi toda roubada.

O naufrágio dos navios fez a comundiade sentir-se apreensiva, ansiosa e amedrontada. Os feridos passaram uma noite em Morro de São Paulo e depois foram levados no dia seguinte para a cidade de Valença, no prédio do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria de Fiação e Tecelagem, onde existia a antiga Recreativa (construção arquitetônica em estilo neoclássico que serviu como primeiro banco de sangue do estado nos anos da Segunda Guerra Mundial). Houve uma espécie de vontade coletiva de prestar socorro às pessoas. A noite que pernoitaram em Morro de São Paulo, os sobreviventes da tragédia dormiram na antiga casa de seu Manuel Elisbão, situada na Praça da Amendoeira, na Vila, parte central da ilha.

Segundo algumas narrativas, na verdade não se sabe as dimensões disso, mas um carrasco alemão, destacado por Hittler para atacar esta parte do litoral da Bahia, tinha como técnica torpedear, submergir e atirar ainda nos naufrágos. Segundo alguns relatos isto era muito comum e acabou chegando naquele momento à comunidade de Morro de São Paulo.

Paralelo a este acontecimento dos torpeamentos e naufrágio dos navios, havia as medidas governamentais como o blecaute parcial e total do litoral. O medo povoa a noite, então, nesta parte do dia era muito complicada para os nativos, que tinham o hábito de pescar com fachos de luz (pedaços de pau com fogo na ponta que serve para iluminar a pesca noturna). Isto já não era mais possível, fazendo com que a capacidade de sustentabilidade da comunidade diminuísse notoriamente. Os alimentos começaram a ser racionados. “Quando íamos para Valença fazer feira trazíamos poucos alimentos”, recorda Dona Zezé.

Seu Valencio Inato Manuel do Nascimento, conhecido como Dandão, 85 anos também outro antigo morador e pescador da ilha, guardou na memória os tempos de pavor vividos em 1942. Ele recorda que quando pescava na ilha do Caitá, na Terecira Praia, ouvia os estouros vindos de perto da costa.

Para concluir o episódio das consequências da Segunda Guerra em Morro de São Paulo, o historiador Augusto César M. Moutinho aponta ainda outra questão: o mito reconstituído. O homem do litoral sempre conheceu o piatatá, que na perspectiva do pescador era uma bola de fogo que percorre o horizonte e mata todo mundo. Dona Mariinha, outra antiga nativa, já falecida, também foi ouvida por Moutinho na elaboração de seu livro.

Em alguns de seus relatos quando falava especificamente dos alemães, Dona Mariinha misturava os elementos, dizendo que os submarinos lançavam fachos de luz no céu e clareavam tudo. Inconscientemente, a antiga moradora referia-se a figura do piatatá.

Outro exemplo e segundo o autor o mais impressionante de todos, está no relato desta mesma senhora ao falar do tempo da colonização, uma releitura de um mito criada no tempo da invasão holandesa, em 1624. Conta à lenda que o nome dado a uma parte da Fortaleza de Tapirandu, onde fica o Forte de Santo Antônio, é atribuído ao fato de que na época da guerra, tentaram invadir Morro de São Paulo e Santo Antônio colocou várias velas acessas no curso da Fortaleza.

Isto assustou e espantou os invasores. Ela dizia que seus antepassados contaram esta história a ela. Estes elementos estão presos na memória do nativo e são agregados a cultura local. Quando se discute o contexto das invasões holandesas ou da Segunda Guerra Mundial, se discute também estes elementos. Conforme Moutinho, estes elementos dizem respeito ao cotidiano das pessoas. “Não é abstração, se enxerga isto na prática e é isto que torna a História mais saborosa e agradável, não lidando somente com datas e sim com fatos e pessoas

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